Quantas ideias você já enterrou por medo da rejeição?

Às vezes ninguém recusou nada. A ideia nem saiu de casa, porque fomos nós que dissemos "não" primeiro. Entenda por que fazemos isso e como saber quando foi prudência e quando foi medo da rejeição.

REJEIÇÃOIDEIAS

9/3/202610 min read

Quem, de fato, disse não para a sua ideia?

Quando eu olho com honestidade para as ideias que abandonei ao longo da vida, a resposta é desconfortável de tão simples: na imensa maioria das vezes, fui eu. A ideia não chegou a sair de casa para ser recusada lá fora, ela foi julgada, condenada e enterrada aqui dentro, num tribunal onde eu era o réu, o promotor e o juiz ao mesmo tempo.

Eu gosto de pensar nisso como uma bola de ferro, dessas de prisioneiro de desenho animado, que a gente mesmo prende no próprio tornozelo e depois joga a chave fora. Ninguém colocou aquela algema em nós. Fomos nós, e fizemos isso achando que estávamos nos protegendo.

E faz sentido que a gente faça isso, por mais estranho que pareça. A psicóloga Geraldine Downey, que estudou o que chamou de sensibilidade à rejeição, observou que muitas pessoas vivem antecipando uma recusa que ainda nem aconteceu, enxergando rejeição até onde ela não existe e, por isso mesmo, se retirando antes da hora. É como se a mente fizesse um cálculo silencioso: se é para doer, que doa agora, do meu jeito e no meu tempo, e não quando outra pessoa decidir. A dor escolhida parece menor que a dor imposta.

O problema é que essa proteção cobra um preço que ninguém vê, porque ela não mata só a vergonha. Ela mata a ideia junto.

Então vamos lá... eu te pergunto, com carinho: a sua última ideia engavetada foi recusada por alguém, ou foi rejeitada por você mesmo?

Há pouco tempo eu escrevi um dos textos mais fortes que já saíram de mim.

Ele nasceu de uma frase atribuída ao comediante Groucho Marx, "eu não gostaria de pertencer a um clube que me aceitasse como sócio", e aquela frase, que parece só uma piada, foi me puxando para dentro de mim mesmo de um jeito que eu não esperava, até eu perceber que estava escrevendo sobre coisas que nunca tinha dito em voz alta nem pra mim mesmo.

Terminei, li de novo, senti aquele frio na barriga de quem se viu nu diante do espelho, e falei: “Ok, perae, eu não parei para pensar mais profundamente sobre toda essa fragilidade aqui.

Foi então, que arquivei ela “momentaneamente” em uma de minhas Hds. Futuramente eu trago ele aqui no blog.

Certa vez li, que escrever é se colocar em lugar de fragilidade, pois as pessoas saberão de coisas que te expõem de certa forma. Então escrever sempre será um ato de coragem.

Mas voltando para o arquivamento de meu texto...

Ninguém leu. Ninguém criticou. Ninguém disse que era ruim.

Quem disse "não", fui eu.

Talvez você nunca tenha escrito um texto assim, mas aposto que você conhece essa sensação, porque ela aparece em algo que você queria vender e nunca teve coragem de oferecer para ninguém, no curso que você “quase” fez depois dos cinquenta, na sugestão que você ia dar no almoço de domingo e engoliu junto com a comida, no livro que está guardado há anos dentro da sua cabeça e você nunca colocou no papel.

Você já percebeu quantas ideias suas morreram sem que ninguém de fora tivesse a chance de dizer uma única palavra sobre elas?

Eu passei a acreditar que existe uma chave para sair desse lugar, e ela estava escondida numa pergunta simples que eu nunca tinha me feito. Mas calma, já, já eu chego nesta pergunta...

Continue atento, pois nas próximas linhas você vai encontrar:

  • por que a gente rejeita as próprias ideias antes que o mundo tenha chance de fazer isso;

  • como saber se aquela ideia que você guardou foi prudência ou medo;

  • um passo pequeno, para hoje à noite, que tira uma ideia da gaveta sem precisar de coragem heroica.

De quem é o rosto que você imagina rejeitando a sua ideia?

Durante muito tempo eu achei que o meu medo era da multidão, daquela plateia enorme e sem rosto que ia rir de mim, comentar, compartilhar minhas imperfeições. Acredite, para colocar o meu canal do Youtube do Ide-Ação eu lutei por meses com essa dor.

Os pesquisadores até têm um nome para essa ilusão: o psicólogo Thomas Gilovich chamou de efeito holofote a nossa tendência de achar que os outros estão reparando em nós muito mais do que realmente estão. A maioria das pessoas que a gente teme sequer sabe que a gente existe.

Só que, olhando para mim, eu descobri que esse medo de estranhos já tinha passado. Hoje eu sei que, lá fora, uma parte das pessoas vai gostar do que eu falo e outra parte não vai, e que sempre vai existir alguém que se conecta com o que eu vivo, aprendo e compartilho. O medo que ainda as vezes ainda me segura mora bem mais perto.

Ele mora nas pessoas que eu mais amo e mais admiro.

São tão especiais essas pessoas que, se numa grande conquista elas não estiverem lá para celebrar, a vitória parece que perdeu o sabor. E é justamente por isso que a bola de ferro pesa tanto: ela tem nome, tem rosto, senta à nossa mesa.

Pode ser seu marido ou esposa, filhos, a irmãos mais velhas que sempre tiveram opinião de importância sobre tudo, nossos amados irmãos, e liderados na igreja, ou ainda aquele grande líder ou mentor que você tanto respeita.

Você não tem medo de o mundo inteiro desaprovar a sua ideia. Você tem medo de ver decepção no olhar de uma única pessoa.

Se esse é o seu caso, você não é fraco por sentir isso. Você só respeita e ama muito.

Toda ideia que eu guardei foi covardia?

Aqui eu preciso ser honesto com você, porque seria fácil demais transformar este texto num discurso de "tire tudo da gaveta e SE JOGA!".

Eu acredito que ter desistido de várias ideias protegeu a mim e à minha família.

Nem tudo que passa pela nossa cabeça é para sair fazendo ou falando. Quando alguém não tem responsabilidade sobre ninguém além de si mesmo, dizer "sim" para uma ideia nova custa muito pouco, mas quando existe uma família para cuidar, ou um grupo de pessoas por quem você é responsável, uma ideia que dá errado sem o risco bem calculado pode ser desastrosa. E, sendo bem sincero, algumas das ideias que eu engavetei eram simplesmente ruins. Se eu somar tudo o que deixei de fazer nos últimos dez anos, não dá para garantir que eu estaria melhor; a balança se equilibra, e a verdade é que ninguém consegue saber exatamente o que teria sido.

Então, como separar uma coisa da outra?

O filtro que eu uso é simples: essa ideia causa dano a alguém? Se causa, ela merece prudência, conversa, tempo, cálculo. Mas se ela não prejudica ninguém e ainda por cima é promissora, e mesmo assim eu travo, então não é prudência. É o medo de ser chamado de louco, de imprudente, de gente que está fora do tempo ou da realidade.

E agora quero falar como um homem de fé. A Bíblia tem um princípio que me faz ficar admirado com a sua precisão:

"O temor do homem arma laços, mas o que confia no Senhor está seguro" (Provérbios 29:25).

Um laço é uma armadilha em que a gente mesmo pisa, quase a mesma bola de ferro com outro nome. E o apóstolo Paulo faz uma pergunta que corta fundo, quando escreve aos gálatas perguntando se estava procurando agradar a homens ou a Deus (Gálatas 1:10).

Eu vejo uma diferença importante entre zelo e medo. Zelo é cuidar da família, da igreja, da sua empresa, da sua equipe, das pessoas que lideramos e que nos lideram, e isso é amor.

Medo é deixar de fazer algo bom, só para não correr o risco de lidar com alguém franzindo a testa.

Por fora os dois parecem iguais, os dois guardam a ideia na gaveta, mas um guarda por amor e o outro guarda por prisão.

E aqui quero fazer uma ressalva. Ir lá e fazer não diz respeito a não pedir conselhos, há sabedoria na multidão de conselhos. O problema aqui, é não falar, engavetar antes que qualquer bom conselho venha para potencializar sua ideia ou corrigir um pouco a rota.

Fechando o assunto

  • Muitas das nossas ideias não foram recusadas pelo mundo: fomos nós que dissemos "não" primeiro, tentando escolher a dor antes que alguém a impusesse.

  • O rosto que imaginamos recusando costuma ser de alguém que amamos, e não da multidão que nem sabe que existimos.

  • Nem toda gaveta é covardia: se a ideia pode causar dano, ela pede prudência; se é inofensiva e promissora, o que trava costuma ser medo.

  • Zelo guarda por amor, medo guarda por prisão.

  • A chave está em reconhecer a frase que você diz a si mesmo logo antes de desistir.

  • Um "não" é registro de experiência, e não sentença.

Para hoje, antes de dormir: pegue um papel e escreva uma única ideia que você engavetou e que não faria mal a ninguém. Embaixo dela, escreva a frase exata que você disse a si mesmo quando desistiu. Só isso. Amanhã, se sentir paz, conte essa ideia para uma pessoa de confiança, sem pedir aprovação, só para ela existir fora da sua cabeça.

Se isso fez sentido para você, é porque em algum lugar aí dentro tem uma ideia boa esperando que você pare de responder por ela.

Eu sou o André Santana. Eu leio para melhorar a minha vida. O que aprendo, eu compartilho. E se te fizer sentido, então você é de casa.

Um abração e fica com Deus.

O que acontece quando alguém decide ser rejeitado de propósito?

Foi ao ler Sem Medo da Rejeição, que me fez olhar para isso de outro jeito. E aqui eu confesso uma coisa: eu li esse livro há algum tempo e, quando voltei a ele, percebi que tinha esquecido quase tudo. É exatamente por isso que o Ide-Ação existe. Eu estou revisitando alguns do mais de 350 livros que li, porque descobri que não lembrava da maior parte deles, e hoje prefiro aprender melhor a simplesmente aprender mais.

Jia Jiang era um sujeito paralisado pelo medo de ouvir "não", até que decidiu fazer o contrário do que todo mundo faz: passou cem dias procurando rejeição de propósito. No primeiro dia, pediu cem dólares emprestados a um completo desconhecido. Ao longo do experimento, fez pedidos cada vez mais improváveis a estranhos e descobriu que a rejeição real era muito menos devastadora do que a que ele imaginava, e que às vezes ela nem vinha.

A psicologia conhece esse caminho há bastante tempo. Na terapia cognitivo-comportamental, uma das formas mais usadas de tratar medos é a exposição gradual: a pessoa encara aquilo que teme em doses pequenas e suportáveis, e o medo vai perdendo força. A dor evitada cresce no escuro, e a dor enfrentada encolhe.

Eu vivi isso com o próprio Ide-Ação. Eu morria de medo de pensar no que as pessoas achariam dos meus vídeos. Tenho bagagem, repertório, anos de experiência, e mesmo assim sentia uma inadequação enorme: afinal, já se passaram 48 anos, e as gerações mais novas tem muito mais afinidade com as redes, e me questionando se eu teria algo real e de valor para compartilhar com as pessoas.

Antes de iniciar, eu observei muitas pessoas, algumas com condições totalmente desfavoráveis, mas elas foram lá e simplesmente se expuseram ao risco da rejeição.

O que me destravou não foi uma palestra motivacional. Foi olhar em volta e ver todo esse tipo de gente, de todas as idades e de todos os jeitos, botando a cara para fazer acontecer.

Tem um filme que retrata bem esse lugar. Em A Vida Secreta de Walter Mitty, o personagem vive aventuras incríveis, mas só dentro da cabeça, enquanto na vida real ele trava diante de qualquer exposição, até que as circunstâncias o empurram para fora e ele descobre que o mundo lá fora é menos assustador que o tribunal que carregava por dentro.

E a fé vai um passo além da psicologia. Isaías descreve o Messias como alguém desprezado e rejeitado pelos homens (Isaías 53:3), e Jesus não contornou essa rejeição, atravessou por ela até o outro lado. Até as últimas consequências.

A ciência diz que a rejeição dói menos do que imaginamos. O evangelho diz outra coisa, mais profunda: que a aprovação que realmente define quem somos já foi dada e não depende do olhar de ninguém à mesa.

A psicologia trata o sintoma. A fé troca o juiz.

Eu acredito que precisamos observar e assimilar as descobertas da ciência e a viver corajosamente pela fé.

Onde está a chave da bola de ferro?

Te prometi lá no começo que eu tinha encontrado uma chave. Ela apareceu quando alguém me perguntou qual frase eu costumava dizer a mim mesmo logo antes de desistir de uma ideia.

Eu não soube responder.

Já usei todas: "isso é bobagem", "isso já deve existir", "quem sou eu pra fazer isso", "vão rir de mim".

Mas nunca tinha prestado atenção nelas, nunca tinha percebido que era sempre uma frase, dita rápido, quase sem som, que dava a direção de minhas decisões à frente.

E foi aí que eu entendi: a chave da bola de ferro não foi jogada tão longe assim. Ela está na frase. Enquanto a frase fala sem ser percebida, ela manda. Quando você a reconhece, ela vira só uma opinião, e opinião a gente pode reavaliar.

Depois de reconhecer a frase, vem o segundo movimento, que é mudar o significado do "não".

Hoje eu entendo que um "não", é o registro de uma experiência, e não a minha sentença de morte.

Lidar com a rejeição, não precisa ser algo tão radical quanto pedir dinheiro a um estranho; pode ser mostrar sua ideia para uma única pessoa.

Mas escolha bem essa pessoa, porque algumas pessoas, mesmo sem querer, são sabotadoras dos nossos sonhos, e para essas você não precisa pedir autorização.

Aquele meu texto sobre Groucho Marx continua guardado. Até pouco tempo atrás, eu não sabia dizer se foi prudência ou medo. Hoje eu sei que preciso fazer a ele uma pergunta bem simples: esse texto causaria dano a alguém, ou só me deixaria exposto?

Se a resposta for dano, a gaveta é o lugar certo, e guardar é cuidado. Se a resposta for só exposição, então a bola de ferro está de volta no meu tornozelo, e a chave está na minha mão.