Somos nós que ensinamos como devemos ser tratados
Se posicionar é uma das coisas mais importantes e necessárias, apesar de ser também uma das coisas mais difíceis, principalmente quando estamos tratando das pessoas que mais amamos.
COMPORTAMENTOPOSICIONAMENTO
André Santana
9/3/20267 min read
O que me chamou atenção para esse tema?
Foi o psicólogo Phil McGraw quem colocou em palavras algo que eu já vivia espontaneamente...
É você quem ensina como os outros devem tratá-lo.
Não é o mundo ao seu redor que decide como vai te tratar, é você quem decide, através dos limites que estabelece, e principalmente, que defende quando são testados. E eles sempre serão testados.
Só que aqui mora uma armadilha que poucos tem capacidade de nos explicar: nós sempre associamos "colocar limites" com "afastar as pessoas".
Como se “dizer não” fosse, de alguma forma, uma pequena traição ao amor.
E vamos levando essa crença ao longo dos anos até perceber algo desconfortável, que a maioria de nós não deixa de colocar limites por generosidade.
Deixamos de colocar limites por medo. Medo de desagradar, medo de sermos vistos como duros, medo de perder a aprovação de quem nós admiramos. E isso não é virtude nenhuma. Isso é covardia disfarçada de amor.
Eu admito que precisei equilibrar o posicionar-se em minha vida, precisei aprender a deixar as pessoas entrarem e me influenciarem saudavelmente.
Em minha casa tive uma experiência divertida, mas importante. No último ano, chegou alguém, um Dachshund, que deu um pouco de trabalho, apesar de toda alegria proporcionada à família.
Demorou algum tempo para entender algumas coisas. Mas ele aprendeu a se comportar comigo sem nenhum curso, sem nenhuma terapia e sem nenhuma citação de Provérbios, apesar de eu orar com ele em meu colo.
Esse dachshund chocolate é o Todinho (vulgo sushixa), é aquele cachorro salsichinha, perseverante (teimoso, rs), que parece ter nascido convencido de que o mundo é dele. Desde que chegou, eu vi ele tentando esticar a corda.
Pulava no sofá que não podia, ignorava a hora de dormir, tomava conta de espaços que não eram dele, pegava as meias de todo mundo, roía os móveis e fazia xixi fora dos tapetinhos (ainda faz).
E eu nunca sentei com ele para explicar as regras da casa de forma literal. Na verdade eu até fiz isso de brincadeira, mas sei que você sabe que com cachorros não é assim que funciona.
Mas o que fiz ao longo dos meses, foi estabelecer limites com consistência. Onde eu dizia não, era não. Onde eu ficava firme, ele aprendia. E hoje, apesar de até ter dito brincando para ele quem é que manda, ele sabe exatamente quem é o alpha da casa. Se a casa não tiver um alpha, ele vai se tornar o alpha.
Apesar dessa relação hierárquica necessária, e de me respeitar como um alpha cachorro de verdade, ele é um cachorro feliz, brincalhão e seguro na maioria das situações, tirando o xixi que ele ainda fica desconfiado quando faz no lugar errado.
Só que essa mesma lição de posicionamento tão óbvia, não é tão fácil de aplicar com pessoas, principalmente com as que amamos. E aqui está a pergunta que que mais importa:
Por que é tão mais fácil ensinar um limite a um animal do que a alguém que compartilha da sua própria linguagem, da sua própria cultura, do seu próprio sangue, da sua própria fé?


O limite mais necessário da minha vida
O limite mais necessário da minha vida nunca foi com quem me maltratou. Foi com uma das pessoas que eu mais amo. Com meu filho.
Por exemplo, eu sempre deixei claro que sou pai e amigo para brincar em todas as situações: brinco de lutinha, de esconde-esconde, desenho junto, jogo game (Minecraft), faço dobraduras, brinco as pistas e carrinhos de Hotwells, montamos lego, assistimos filmes e animes juntos, já fiz literalmente todo tipo de brincadeira que uma criança pode imaginar com ele.
Mas eu também deixo muito claro, sem nunca precisar ser demasiadamente duro para isso, que eu não sou o coleguinha dele.
E o interessante é que ele entendeu isso quase sozinho, (uma ou duas vezes eu precisei verbalizar) mas foram raras as vezes que ele tentou me tratar sem o devido respeito, porque a régua ficou clara desde o início.
A mensagem é: “Dou minha vida por ti, mas não confunda quem eu sou pra você”.
Já vi o oposto acontecer com pessoas que respeito profundamente, com alguns dos homens mais admirados e influentes que conheço de perto. Vi, mais de uma vez, gente fazendo piadinha ou brincadeira "de intimidade" com eles, tentando parecer próximo.
E o problema dessas brincadeiras não é a malícia, na maioria das vezes não existe malícia nenhuma ali. O problema é que elas ficam bem na fronteira entre intimidade e desrespeito, e quando alguém mais maduro não se posiciona diante disso, manda um sinal silencioso para quem está observando: "isso aqui é aceitável".
E pessoas menos maduras aprendem exatamente esse comportamento.
Reparem: o vilão dessa história não é o abusador clássico que todo conteúdo sobre limites gosta de combater. O vilão é a proximidade mal calibrada, motivada por afeto genuíno, por vontade real de pertencer.
É o filho que quer ser seu igual porque te ama. É o admirador que quer ser íntimo porque te admira. E é justamente por vir do amor que esse tipo de invasão é o mais difícil de barrar sem parecer ingrato.


O que a psicologia chama de "profecia autorrealizável"
Henry Cloud e John Townsend, psicólogos que se dedicaram a estudar limites, usam uma imagem que eu acho perfeita:
Um limite não é um muro para manter as pessoas longe. É uma cerca com um portão, ela define o que somos, o que deixamos entrar e o que mantemos fora.
E aqui entra algo que eu vivo, mas nunca tinha visto explicado com tanta clareza: as pessoas, num nível quase inconsciente, leem o quanto nos valorizamos e tendem a espelhar exatamente esse tratamento de volta.
Se eu não respeito meu próprio tempo, meu propósito, meus valores, a mensagem que emito, sem dizer uma palavra, é "isso aqui não tem valor".
O respeito que recebo lá fora é sempre, no fundo, um eco do respeito que cultivo aqui dentro.
É a mesma lógica do meu dachshund, só que sem a complexidade da linguagem humana atrapalhando. Eu nunca "expliquei" a ele que era o alfa da casa. Ele leu isso na minha postura repetida, dia após dia.
Com gente, complicamos. Porque colocar limite com quem amamos parece, à primeira vista, um gesto de rejeição. E aqui é onde a maioria trava, inclusive eu, em algumas situações.


Fechando o assunto
Eu não escrevi esse texto porque já dominei isso. Escrevi porque ainda pego a mim mesmo, de vez em quando, engolindo um desconforto para não parecer "difícil" com quem eu amo e respeito. A diferença é que hoje eu reconheço o mecanismo, e reconhecer já é metade do caminho.
Se isso fez sentido pra você, é porque, em algum canto da sua história, você também já trocou clareza por aprovação. E talvez seja hora de lembrar que amar de verdade nunca exigiu que você desaparecesse.
Eu sou o André Santana. Eu leio para melhorar a minha vida. O que aprendo, eu compartilho. E se te fizer sentido, então você é de casa.
Fica com Deus e um forte abraço.






O limite como mordomia, não como frieza
Na fé que eu carrego, existe um conceito que ressignificou completamente essa luta para mim: somos mordomos, administradores da vida, do tempo, da energia que Deus nos confiou.
E não colocar limites quando somos desrespeitados, ou quando somos sugados por proximidades mal calibradas, não é humildade. É má administração do que nos foi dado.
Jesus, que muitos leem como o modelo máximo de mansidão, não era submisso a abuso nenhum. Ele se retirava das multidões quando elas exigiam demais dEle.
Repreendeu Pedro com firmeza quando este tentou desviá-lo do propósito (havia algo espiritual no background mas Pedro se permitiu tentar interferir). E diante do soldado que O golpeou, questionou com autoridade, sem submissão, sem violência, só clareza.
O amor cristão, quando genuíno, tem espinha dorsal. Provérbios 25:28 resume isso numa imagem que eu não canso de repetir para mim mesmo:
Quem não sabe se dominar é como uma cidade com os muros derrubados, vulnerável a qualquer invasão, por mais bem-intencionada que ela pareça.
E é aqui que a psicologia e a fé, que em geral tratamos como coisas separadas, se encontram: os dois dizem exatamente a mesma coisa com vocabulários diferentes.
A psicologia chama de assertividade. A fé chama de mordomia. Ambas apontam para o mesmo lugar, quem não se posiciona não está amando mais, está apenas administrando mal o que lhe foi confiado.


Como isso vira prática
Se você chegou até aqui reconhecendo essa dor, aqui vai o caminho que eu mesmo uso, resumido em três movimentos:
Defina o que é importante. Sem essa clareza, todo limite vira reação emocional e não convicção.
Analise os invasores. Onde a linha tem sido cruzada sem a sua permissão.
Instale o portão na cerca. Exercite a compreensão, não é preciso ser duro, mas é preciso ser claro.
Leio para viver melhor. O que aprendo, eu compartilho.
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© 2026 André Santana
Se te faz sentido, então você é de casa.


