Seja você mesmo? Por que esse conselho bonito pode ser uma armadilha?

Seja você mesmo pode até parecer um conselho bonito, ma pode ser uma armadilha. Quantas vezes você já ouviu isso? Quantas vezes você já disse isso pra alguém, com a melhor das intenções, achando que estava oferecendo um alívio?

PESSOALAUTOCONSCIÊNCIA

7/24/20266 min read

Quando a autenticidade vira desculpa

Você já percebeu que a gente usa "eu sou assim mesmo" quase sempre depois de fazer algo errado?

"Desculpa, eu sou assim mesmo, muito direto." (Depois de ter sido grosseiro.)

"É que eu sou muito reativo, meu gênio é forte mesmo." (Depois de ter explodido com alguém.)

"Eu sou transparente demais, não sei fingir." (Depois de ter magoado alguém com uma sinceridade que não precisava existir daquele jeito.)

Sabe o que acontece quando a gente faz isso? A gente transforma os rótulos que damos a nós mesmos em prisão. E o pior, uma prisão que a gente mesmo constrói, tijolo por tijolo, toda vez que se recusa a mudar.

Existe uma diferença que precisa ficar clara, porque é ela que separa o remédio do veneno:

  • Identidade é quem você é diante de Deus, seus valores, sua história, seu chamado. Isso é fundação, não se muda.

  • Comportamento é o que você faz, como você reage, como você trata as pessoas. Isso é escolha, e escolha se muda.

  • Caráter é o que está sendo formado dentro de você com o tempo, a colheita de todas as pequenas escolhas repetidas.

O problema começa exatamente ali, no momento em que a gente pega uma coisa da primeira categoria, que é a identidade, e usa pra justificar uma coisa da segunda categoria, o comportamento ruim. É como usar a fundação da casa como desculpa pra nunca trocar a fiação elétrica que está prestes a causar um incêndio.

Eu já disse essa frase algumas vezes e até falei acidentalmente sem perceber na hora. Após palestrar por uma hora, dizendo pontos importantes de mudanças em nossas vidas, disse para uma pessoa, para que ela fosse quem ela era. Ao cometer esse grave erro, com certeza eu não a ajudaria em nada na próxima fase da vida que ela estava entrando.

E nos últimod mses tenho refletido sobre o que acontece quando "seja você mesmo", cai no ouvido errado, na hora errada e para a pessoa errada.

Porque olha, existe um contexto em que "seja você mesmo" é remédio. Quando alguém está se destruindo por tentar imitar os outros, por viver a vida que os outros esperam, por se tentar se encaixar num molde que não é o dele, nessa hora, sim, essa frase liberta.

Mas existe outro contexto, bem mais comum do que a gente gosta de admitir, em que essa mesma frase vira uma armadilha. E é sobre isso que eu quero conversar com você hoje.

O que a psicologia já sabe sobre isso

A psicóloga Carol Dweck chama isso de Mindset Fixo, a crença de que nossas habilidades e traços são imutáveis. "Eu nasci assim, eu cresci assim, é o meu jeito."

Quando você usa a autenticidade pra justificar grosseria, desorganização ou reatividade, você não está sendo honesto, você está se escondendo detrás de uma palavra bonita.

E tem uma pesquisadora de Harvard, Herminia Ibarra, que estuda liderança e chegou a uma conclusão parecida: ela chama de "a armadilha da autenticidade".

Muitos líderes fracassam justamente porque tentam ser "autênticos demais". Se o seu jeito natural é ser um chefe explosivo e centralizador, "ser você mesmo" não vai te tornar admirável, vai destruir a equipe que você lidera.

O crescimento, seja profissional ou pessoal, exige que você largue quem você é hoje pra se tornar quem o próximo capítulo da sua história está pedindo que você seja.

E aqui vai uma coisa que ninguém te conta, mudar de comportamento sempre vai parecer falso no começo. Sempre.

Um introvertido que decide ser mais comunicativo se sente artificial.

Uma pessoa agressiva que decide segurar a língua se sente hipócrita.

E sabe por quê? Porque você está literalmente construindo um músculo novo, e músculo novo dói, incomoda, parece estranho até que se torne parte de você.

O que a fé diz sobre isso, e é bem diferente do que o consenso popular diz

Agora eu preciso te levar pra um lugar mais profundo, porque é aqui que a coisa realmente ganha profundidade pra mim.

A mensagem mais comum é: "Descubra quem você é e aceite-se do jeito que é."

A mensagem de Cristo é radicalmente diferente, e olha que ela não é só diferente, ela é o oposto:

"Se alguém quiser me seguir, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mateus 16:24).

Você percebeu isso? O Evangelho não te chama pra abraçar a sua natureza como ela é. Ele te chama pra mortificar o que precisa morrer em você.

E Paulo escreve algo que eu releio sempre que preciso me lembrar disso:

"Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente" (Romanos 12:2).

A palavra usada ali, no grego, é metanoia, não é um ajuste pequeno, é uma mudança radical de rota, de direção, de mentalidade.

Dizer "seja você mesmo" pra alguém que carrega orgulho, mágoa ou um padrão de pecado autodestrutivo enraizado é, na prática, impedir essa pessoa de experimentar o milagre que Paulo descreve em 2 Coríntios 5:17:

"Se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas."

Deus te ama exatamente como você está agora. Mas Ele te ama demais pra te deixar do jeito que você está.

E se isso te incomodar um pouco, ótimo, comigo também incomoda. Porque é mais confortável se aceitar do que se deixar transformar.

Três perguntas antes de aconselhar alguém (ou você mesmo)

Antes de sair distribuindo "seja você mesmo" por aí, ou antes de usar isso como desculpa pra si mesmo, eu aprendi a fazer três perguntas. E elas mudaram a forma como eu lido com as pessoas do meu pequeno grupo, com pessoa próximas e principalmente comigo mesmo:

• Essa pessoa está com uma crise de identidade, ou está resistindo a uma mudança necessária?

  • O que nela precisa ser afirmado?

  • O que nela precisa ser confrontado, com amor?

Essas três perguntas evitam dois erros opostos: o erro de esmagar alguém que só precisava de aceitação, e o erro de acomodar alguém que só precisava de um empurrão pra crescer.

A auditoria que eu faço comigo mesmo

Ao ler Vencendo com as Pessoas e passar a leitura por meu processo de aprendizado Ide-Ação, me deparei com um exercício simples, mas que dói, no bom sentido:

1. A auditoria da desculpa disfarçada de personalidade.

Liste três comportamentos seus que você costuma justificar com "eu sou assim mesmo". Pode ser impaciência, pode ser a língua afiada, pode ser a dificuldade de pedir perdão. Só o ato de escrever isso já começa a desmontar a mentira pra si mesmo.

2. O retrato de quem você precisa se tornar.

Em vez de descrever quem você é hoje, descreva quem você precisa ser pra alcançar o que Deus colocou no seu coração, na sua família, no seu trabalho, na sua história com Ele.

3. A semana do desconforto.

Escolha um daqueles comportamentos e, por sete dias, aja de forma oposta, mesmo que pareça falso, mesmo que pareça artificial. Se você é explosivo, seja manso por uma semana. O objetivo não é fingir pra sempre; é provar pro seu próprio cérebro que aquele comportamento sempre foi uma escolha, nunca uma prisão genética.

Fechando essa conversa

Talvez o melhor conselho não seja "seja você mesmo".

Talvez seja este, um pouco mais desconfortável, mas muito mais honesto:

seja honesto sobre quem você é hoje, e corajoso o bastante pra se tornar quem Deus está formando em você.

Se isso fez sentido pra você, é porque, em algum lugar dentro de você, já existe a suspeita de que a versão atual não é a versão final. E essa suspeita, meu amigo, não é derrota. É o início de toda transformação real.

Essas foram algumas poucas palavras de um amigo e irmão que tem aprendido a Vencer com as Pessoas.

Eu sou André Santana e leio para melhorar a minha vida. O que leio, eu compartilho. E se te fizer sentido, então você é de casa.

Abração e que Deus te abençoe