Por que eu cometo os mesmos erros?

Você chega em casa depois de um dia exaustivo. Sua esposa ou marido faz uma pergunta simples, num tom completamente neutro: "Você lembrou de passar no mercado?" Você esqueceu. E antes mesmo de formular uma resposta, alguma coisa já ferve por dentro, uma irritação desproporcional toma conta, e em menos de 90 segundos vocês dois estão discutindo.

COMPORTAMENTOPERCEPÇÃO

7/28/20265 min read

A matemática que ninguém quer fazer

Quando a gente enfrenta dificuldade recorrente com pessoas diferentes, em contextos diferentes, nosso instinto é culpar o ambiente. Foi aquele funcionário problemático, foi aquele cliente chato, foi aquela fase difícil do casamento.

Mas você já parou pra fazer essa conta? Se o padrão de conflito se repete vez após outra, com pessoas que nem se conhecem, em situações completamente diferentes, a matemática dessas relações é implacável: existe só um elemento comum nessa história. E esse elemento é você.

Eu costumo dizer o seguinte pros meus liderados mais próximos, e isso não é acusação, é aritmética pura: quando um padrão se repete com pessoas diferentes, o denominador comum é você.

Eu sei que essa frase incomoda. Ela incomodou em mim antes de eu escrever ela pra qualquer outra pessoa. Mas olha que interessante: essa percepção, ao invés de ser uma sentença de culpa, é na verdade um convite pra liberdade.

Porque se o problema fosse só o mundo, só as pessoas ao seu redor sendo difíceis, você seria um refém permanente, dependente de que todo mundo mudasse pra você finalmente ter paz.

Mas se a questão está na sua lente, então a solução está debaixo da sua própria gestão. Isso é libertador, não é uma condenação.

No fundo, ambos sabem que a briga não é sobre a lista de compras. Mas o padrão se impõe do mesmo jeito.

No dia seguinte, o cenário muda, mas a música é exatamente a mesma. Seu sócio demora pra responder uma mensagem, e você já projeta traição, falta de respeito. À noite, um comentário genérico no culto soa como um dardo apontado direto pra você.

Sabe o que acontece quando isso se repete? Você começa a suspeitar que talvez o problema não esteja na sua esposa, no seu sócio ou no pastor.

As vezes leva um bom tempo pra admitir isso, porque é bem mais confortável achar que o mundo está cheio de gente difícil do que aceitar que talvez o difícil seja eu e você.

O Queijo no Bigode

Em seu livro Vencendo com as Pessoas, John Maxwell conta uma história que eu não consigo esquecer.

Um vovô estava dormindo, e os netos, de brincadeira, colocaram um pedaço de queijo estragado embaixo do bigode dele. Quando ele acordou, sentiu um cheiro horrível na sala. Foi pra cozinha, cheiro horrível também. Foi pra varanda, o mesmo cheiro o seguiu. E ele concluiu, indignado: "o mundo inteiro está estragado!"

O problema estava colado perto demais do próprio rosto dele pra ele conseguir perceber.

Você já percebeu que a gente faz exatamente isso? Falamos que o ambiente de trabalho é tóxico, as pessoas como difíceis, a igreja como cheia de gente hipócrita, sem notar que o cheiro que está nos incomodando pode estar grudado na nossa própria percepção.

E o pior detalhe dessa história é esse: a lente é invisível pra quem a usa. Você não vê o queijo no seu próprio bigode. Mas todo mundo ao seu redor vê os efeitos dele, nas brigas repetidas, no isolamento, no papel de vítima que você foi assumindo sem perceber.

As cinco camadas que filtram tudo que você vê

A nossa percepção nunca é uma fotografia fiel dos fatos. Ela é uma construção, e essa construção tem camadas, uma sobre a outra, como lentes empilhadas.

A primeira camada é a cosmovisão, a crença de fundo sobre como o mundo funciona. É aquele "é óbvio que as coisas são assim", que faz você desprezar quem pensa diferente, não porque a ideia do outro seja ruim, mas porque você nem discute a ideia, discute o fato de a pessoa ter ousado pensar diferente de você.

A segunda é a autoimagem, a voz que fala com você quando ninguém está olhando. "Eu sei que não sou grande coisa, mas me viro." Você já percebeu que gente com autoimagem frágil rebaixa qualquer elogio e reage feito fera a qualquer crítica? É porque a voz de fora só está tocando numa ferida que a própria pessoa já se inflige todos os dias.

A terceira é a identidade, o rótulo que você carrega sobre de onde age. "É que eu sou assim." Se o seu rótulo é "O Justo", advinha o que acontece? Você vai precisar encontrar injustiça em todo lugar, mesmo que precise distorcer os fatos, porque sem injustiça pra combater, o seu papel deixa de existir.

A quarta são as experiências, as ranhuras no vidro. "Já vi esse filme antes." É aqui que o seu cônjuge recebe a raiva que era pra ser do comprtamento do seu pai ausente, e o seu sócio recebe a desconfiança que era pra ser do comportamento do amigo que te traiu há dez anos.

E a quinta, resultado de todas as outras, é a percepção do outro, a interpretação que você jura de pé junto ser a verdade absoluta. "Eu só estou falando o que é óbvio." Só que esse "óbvio" já passou por quatro filtros antes de chegar até você.

Por que "tentar ser mais calmo" nunca funciona de verdade

Aqui está onde a maioria das pessoas erra a mão, e eu já errei bastante nisso também: tentar resolver o conflito mudando só o comportamento de fora. Prometer ser mais paciente. Decidir, com toda a força de vontade, evitar a próxima discussão.

O problema é que mudança de comportamento sem mudança de lente tem data de validade, é como colocar um band-aid numa ferida que precisa de sutura. A força de vontade se esgota, o queijo continua debaixo do bigode, e você volta pro padrão antigo assim que a pressão aumenta.

Provérbios 4:23 fala isso de um jeito que a psicologia moderna só veio confirmar séculos depois: "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida."

A qualidade da sua vida não nasce dos eventos externos, nasce do coração, dessa fonte interna que filtra e interpreta tudo o que acontece com você.

Mudar a percepção, não o comportamento superficial, é o único caminho que sustenta.

Fechando a Conversa

Antes de tentar mudar o mundo, o cônjuge ou o sócio, é preciso ter coragem de lavar o “próprio bigode”.

Se fez sentido pra você, é porque você também já discutiu sobre uma lista de compras que, no fundo, nunca foi sobre a lista de compras.

Essas foram algumas poucas palavras de um amigo e irmão que tem aprendido a Vencer com as Pessoas.

Eu sou André Santana e leio para melhorar a minha vida. O que leio, eu compartilho. E se te fizer sentido, então você é de casa.

Abração e que Deus te abençoe

O espelho que a gente chama de "pessoa difícil"

Quando uma pessoa parece difícil, pode ser problema dela, isso existe, e eu não quero soar como quem acha que toda dificuldade relacional é culpa sua.

Mas quando todas as pessoas parecem difíceis, o diagnóstico muda de endereço.

Se a pessoa mais difícil da sua vida hoje for, na verdade, um espelho, o que ela está tentando te mostrar sobre você mesmo?