O que sua boca revela sobre você (e que você provavelmente não quer ouvir)

O que sua boca revela sobre você? Você já reparou como às vezes você fala com alguém e, no segundo seguinte, se pergunta "por que eu disse aquilo daquele jeito?" Como se a frase tivesse saído de um lugar que nem você sabe direito.

COMPORTAMENTOCOMUNICAÇÃO

8/12/20266 min read

A área que ninguém vê em si mesmo

Existe uma ferramenta clássica da psicologia chamada Janela de Johari, que divide o autoconhecimento em quatro quadrantes.

O mais perigoso deles não é o que os outros também não sabem sobre você, é a Área Cega: aquilo que todo mundo ao seu redor enxerga através da sua fala, do seu tom de voz, das suas atitudes, e que só você não consegue ver.

É como andar por aí com uma mancha nas costas que todo mundo comenta, menos você.

Você acha que está apenas "passando uma informação neutra", mas o tom, a escolha das palavras, a pressa em interromper, tudo isso está gritando seus medos, suas inseguranças, suas pequenas arrogâncias, para quem está do outro lado.

A psicanálise chama isso de vazamento emocional. Aquela ironia que "é só brincadeira", aquela dificuldade crônica de dizer não, aquela piada que sempre vem carregada, nunca são só "jeito de falar".

São o inconsciente pegando o microfone quando você não estava olhando.

E Marshall Rosenberg, no trabalho dele sobre Comunicação Não-Violenta, foi ainda mais longe: ele mostrou que a forma como falamos está diretamente ligada às nossas necessidades internas que não foram atendidas.

Uma pessoa que fala de forma acusatória, o tempo todo, não é simplesmente "mal-educada", geralmente ela carrega uma ferida antiga de não ter sido ouvida, de não ter sido validada.

A fala violenta, no fundo, é a expressão trágica de uma necessidade que ninguém escutou.

Isso muda tudo, não muda? Porque a gente costuma julgar o comportamento do outro (ou o próprio) só pela superfície, sem perguntar o que está embaixo.

Você já reparou como às vezes você fala com alguém e, no segundo seguinte, se pergunta "por que eu disse aquilo daquele jeito?" Como se a frase tivesse saído de um lugar que nem você sabe direito.

John Maxwell tem uma frase que eu carrego comigo já faz algum tempo:

A nossa personalidade aparece justamente quando falamos das outras pessoas e interagimos com elas.

Não quando estamos sozinhos, planejando o que vamos dizer. Mas sim ali, no calor da conversa, quando a boca fala antes de o filtro terminar de processar.

E eu confesso: essa ideia acende a luz amarela dentro da gente. Porque nós temos a convicção de que sabemos exatamente quem somos.

Só que a forma como eu falo com as pessoas, principalmente quando estou cansado, com pressa ou me sentindo ameaçado, conta uma história diferente da que eu gosto de contar sobre mim mesmo.

O que Jesus já tinha dito sobre isso

Se a ciência já mostra isso, a fé chega no mesmo lugar por outro caminho, e por aqui no Ide-Ação, ciência e espiritualidade não competem, elas cooperam.

Jesus foi direto: "A boca fala do que está cheio o coração" (Mateus 12:34).

Não existe fala neutra. Se a sua comunicação é constantemente pessimista, ou fofoqueira, ou irritada, o problema nunca esteve no vocabulário, está na fonte. É a fábrica, não a embalagem.

Eu gosto de pensar assim: tentar mudar a forma como você fala sem mexer no que está dentro de você é como tentar purificar a água da torneira limpando o cano por fora, enquanto a caixa d'água continua suja lá em cima.

Você pode até trocar algumas palavras, suavizar o tom por uns dias, mas se o coração continuar cheio do mesmo lixo, ele vai vazar de novo, na primeira pressão que aparecer. Lixo que entra é lixo que sai.

Tiago compara a nossa língua ao pequeno leme que dirige um navio enorme (Tiago 3:4-5).

E Provérbios lembra: "A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira" (Provérbios 15:1).

A comunicação não é só expressiva, ela é criativa. Ela cria o clima do ambiente ao redor. Se você não se conhece o suficiente para regular suas respostas sob pressão, você vira um incendiário de relacionamentos sem nem perceber que estava carregando fósforo no bolso.

O Estúdio de Gravação Interno: como eu tenho praticado isso

Reconhecer o problema é fácil. Difícil é fazer alguma coisa com ele antes que ele destrua mais uma conversa.

Por isso eu comecei a usar comigo mesmo, e agora ensino por aqui no Ide-Ação, um pequeno processo de reflexão que eu chamo de Estúdio de Gravação Interno.

É basicamente parar de reagir no automático e começar a "gravar e reescutar" a própria fala.

1. A Auditoria das Frequências. Primeiro, você precisa observar como você se comunica sob pressão. Você é do tipo que levanta a voz e ataca, o que geralmente revela uma personalidade mais controladora, ou mais medrosa do que parece?

Ou você é do tipo que se cala, engole seco e foge do conflito, o que costuma revelar insegurança disfarçada de paciência? Vale anotar, por uma semana, os adjetivos que você mais usa quando fala das pessoas e das situações.

Você vai se surpreender com o padrão.

2. O "Porquê" atrás do "O Quê". Quando você soltar aquela frase ríspida, irônica, passivo-agressiva, com a esposa, o colega de trabalho, o filho, treine a pausa. Não fique preso a o que o outro fez. A pergunta que realmente importa é outra: qual medo ou dor minha me fez responder assim? (Não deixe a amigdala agir antes do o córtex pré-frontal.

3. A Retratação Consciente. Essa é a parte mais difícil, e também a mais curativa. É quando você se força a admitir o erro na comunicação diante da outra pessoa.

Uma frase que eu mesmo já usei, e que recomendo: "Desculpe pela forma como falei agora”. Parece pouco. Mas essa vulnerabilidade desarma o conflito de um jeito que nenhuma técnica de comunicação "profissional" consegue. Ela constrói intimidade de verdade, porque mostra a pessoa por trás da fala.

Esta semana estava à mesa do café da manhã com meu filho de 8 anos. Estávamos conversando amigavelmente, após eu ter dado alguns comandos, porém o conhecendo bem, percebi que ele estava protelando em fazer suas tarefas e alongando a conversa com generalidades como fuga.

Perceber isso me deixou frustrado. Repentinamente meu humor mudou, e minha comunicação amigável e acolhedora se tornou severa e dura.

Ele baixou a cabeça por um segundo, mas foi tempo o suficiente para eu perceber que tinha exagerado no tom em meio a uma conversa gostosa.

Eu não estava errado em ordenar as coisas, mas estava errado no tom e na mudança drástica. Eu poderia ter explicado a minha insatisfação com o rumo da conversa em vez de parecer bipolar diante do meu filho.

Imediatamente percebi a virada de tom, pedi desculpas, disse que o amava, mas que não poderia continuar permitindo que ele evitasse suas responsabilidades.

Ele me abraçou, disse “te amo papai”, eu tenho mesmo que fazer a minha parte. O senhor está desculpado.

E ambos fomos cumprir com nossos compromissos.

Fechando o assunto

Recapitule comigo...

• Sua fala sob pressão revela mais sobre você do que qualquer discurso planejado.

• A Área Cega existe porque os outros ouvem o seu tom antes de você perceber que ele existe.

• Por trás de toda fala violenta ou evasiva, existe uma necessidade que não foi atendida.

• Mudar a fala sem mudar o coração é remendo temporário, o vazamento volta.

Observe seu padrão sob pressão → pergunte qual medo está por trás dele → tenha coragem de se retratar.

Eu ainda erro nisso, viu? Até com uma certa frequência indesejável. A diferença é que hoje eu erro com um pouco mais de consciência, e isso já muda o rumo de muita conversa e evita muito estrago.

Se fez sentido pra você, é porque provavelmente você também já se pegou falando um "não sei por que eu disse aquilo", e agora tem um caminho de reflexão pra investigar o porquê.

Esse artigo foi inspirado em um dos 90 insights que extraí aplicando o Ide-Ação sobre a leitura do livro Vencendo com as Pessoas de John Maxwell.

Eu sou o seu amigo e irmão André Santana que tem aprendido a Vencer com as Pessoas.

Leio para melhorar a minha vida. O que leio eu compartilho. Se te fizer sentido, então você é de casa.

Abraço e fica com Deus.