Ninguém pode fazer-nos sentir inferiores sem o nosso consentimento

Como pai de um garotinho de 8 anos, aprendi, com o tempo, que tratar de assuntos com importância emocional nunca funcionam por meio de uma pergunta direta. Exemplo, como foi sua tarde? A gente sempre recebe um “boa” quando vamos por essa pergunta genérica.

COMPORTAMENTOEMOÇÕES

8/21/20267 min read

A caneta em nossas mãos

Existe uma frase que eu li pela primeira vez em 2018, no livro Vencendo com as Pessoas, do John Maxwell, atribuída a Eleanor Roosevelt:

Ninguém pode fazer você se sentir inferior sem o seu consentimento.

Na época, sublinhei, achei bonita, segui a leitura.

Foi só agora em 2026, revisando o mesmo livro pra trazer para o projeto Ide-Ação, oito anos depois, que essa frase pulou da página de um jeito diferente, e ela se conecta o aquele momento de silêncio do meu filho dentro do carro.

Ele não estava triste porque alguém disse que ele era ruim. Ele estava triste porque, no fundo, já tinha assinado embaixo daquilo antes mesmo de qualquer amigo abrir a boca: decidiu que "não estar entre os melhores" era prova de algum coisa ruim sobre o valor dele.

E foi aí que a ficha caiu pra mim, mas numa versão adulta do mesmo problema: eu também corro o risco de viver assinando esse tipo de consentimento sem perceber que a caneta está na minha mão.

Se realmente ninguém tem esse poder sobre a gente sem a nossa permissão, por que a gente entrega essa permissão com tanta facilidade e por que, se não tomarmos os devidos cuidados, a gente ensina, sem querer, aos próprios filhos a fazerem o mesmo?

Um dia desses peguei ele na escola, após o treino de futsal, no caminho de volta para casa, percebi que ele estava quieto de um jeito que eu já reconheço de longa data. Queria muito saber o que estava passando no coraçãozinho dele.

Fui investigando, puxando outros assuntos que ele gostava, até ele relaxar e se sentir mais a vontade. Foi só depois de uns dez minutos de uma conversa descontraída e algumas brincadeiras que são só nossas que ele soltou, quase sem querer, que não estava muito legal.

Falei para ele me contar mais um pouco mais sobre isso. Que era muito importante entender o que aconteceu e que incomodava tanto o seu coração.

Então ele me disse que no futsal, os amigos tinham reclamado que ele errava demais no treino, e ele não estava satisfeito por não estar entre os melhores jogadores do time.

Não foi um xingamento, não foi bullying, foi só a comparação fazendo o trabalho sujo dela.

E enquanto eu tentava achar as palavras certas pra dizer que aquilo não definia o jogador nem o menino que ele era ou poderá vir a ser, uma pergunta ficou martelando em mim, bem mais incômoda do que qualquer coisa que eu falei pra ele:

Quantas vezes eu já passei exatamente pela mesma coisa, deixei que a crítica de outras pessoas “definissem” quem eu era naquele momento?

Garoto olhando pela janela do carro para fora
Garoto olhando pela janela do carro para fora

Por que um comentário pequeno pesa tanto?

Lembrei de algo mais antigo. Em uma reunião de um pequeno grupo, que liderava, isso já faz alguns anos, alguém contou empolgado sobre um projeto que tinha acabado de decolar, números crescendo, gente comentando. A coisa toda estava decolando.

Mas uma das pessoas que deveria estar comemorando junto, porque era nosso amigo de verdade falando ali, essa pessoa sentiu o estômago apertar de um jeito que ele não sabia nomear na hora.

Eu percebi antes que ela conseguisse esconder, porque já eram alguns anos de convivência com aquele grupo. Mais tarde, refletindo sobre aquela situação, entendi que não era sobre o projeto do amigo. Era sobre onde o outro havia colocado o termômetro do seu próprio valor.

Existe um nome pra isso, e eu só fui aprender o nome nesses últimos dias que tenho estudado mais sobre o assunto: o psicólogo Julian Rotter chamou de Locus de Controle a crença que cada um de nós carrega sobre onde mora o poder sobre a própria vida.

Quando esse locus está do lado de fora, cada elogio que não veio, cada projeto do outro que decola primeiro, chega tentando editar o valor sobre quem eu sou.

Quando ele (Locus) está por dentro, a notícia do outro continua sendo boa notícia, e para de ser régua para nossas vidas.

Existe cura pra essa sensação de inferioridade?

O curioso é que, nos dias em que esse aperto no estômago aparece, a última coisa que resolve é a gente se sentar e tentarmos convencer a nós mesmos de que somos bom o suficiente. Isso é como tentar apagar fogo soprando: o vento só espalha a brasa.

O que sempre funciona, sem exceção, é o oposto: largar o próprio umbigo de lado e ajudar a resolver o problema de alguém, mesmo que seja bem pequeno.

Algumas vezes ao longo da minha carreira profissional tive que lidar com esse tipo de sentimento. E sempre que eu ajudava alguém, fosse aqueles que estavam um passo atrás ou a frente de minha caminhada como publicitário, o meu coração se enchia de satisfação por ajudar alguém servindo com o que eu sabia ou fazia.

Alfred Adler, o psiquiatra que deu nome ao complexo de inferioridade, chegou numa conclusão que contraria quase tudo que a autoajuda vende hoje:

A cura não está em correr atrás de mais superioridade, mais prova, mais aplauso. Está em desenvolver o que ele chamava de sentimento comunitário, de servir a quem está do seu lado, tirando o foco do próprio ego ferido.

Servir, pra Adler, não era gentileza opcional. Era remédio.

Por que penso tanto em mim quando estou tentando não pensar em mim?

C. S. Lewis escreveu uma frase que se encaixa como uma luva para toda vez que a gente se pegar entrando nesse tipo de espiral:

Humildade não é pensar menos de si mesmo, é pensar menos em si mesmo.

E foi só relendo essa frase, depois daquele final de tarde com meu filho e daquela reunião de pequeno grupo, que enxerguei uma coisa importante a respeito de duas frases muito utilizadas em situações onde nos sentimos diminuídos:

"Quem essa pessoa pensa que é, pra falar assim de mim?" ou "Eu não mereço me sentir assim por um comentário tão maldoso!", parecem frases de gente completamente diferente, uma de quem se acha por cima, outra de quem se acha por baixo, mas as duas nascem exatamente do mesmo lugar.

O centro da frase continua sendo eu.

Superioridade e inferioridade são faces da mesma moeda; e o ego se machuca igual dos dois lados dela.

Profissional homem ajudando outra profissional mulher no trabalho
Profissional homem ajudando outra profissional mulher no trabalho

Ponto de virada

Foi pensando nisso que meu foco se concentrou em um texto que eu já conheço de cor, mas que não havia refletido sobre ele nesta perspectiva: Ele está no Evangelho de João capítulo 13.

Aqui estamos falando de Jesus. Sabendo exatamente quem era e sabendo que voltaria para e em glória, se abaixou e lavou os pés dos discípulos, tarefa reservada ao servo mais simples da casa.

Ele não precisou provar nada pra ninguém naquela sala, porque a identidade dEle já estava bem resolvida antes de pegar a toalha e a bacia. E é exatamente por isso que conseguiu se ajoelhar sem se sentir diminuído.

Na verdade, Ele próprio se diminuiu, não em sentimentos negativos, mas em boa atitude para deixar o exemplo de como estar acima das circunstâncias sociais dolorosas.

Só quem já sabe quem é, consegue servir sem ficar esperando de quem está sendo servido, alguma confirmação de que tem algum valor.

Paulo faz algo parecido em 1 Coríntios 4, quando tira a própria identidade do tribunal dos homens e coloca diante do tribunal de Deus.

Confesso que essa é uma capacidade espiritual que ainda estou aprendendo a exercitar sem trapacear, porque existe uma linha fina entre não deixar a opinião alheia definir seu valor, ou usar isso como desculpa pra nunca mais ouvir uma correção justa.

Identidade resolvida não te tira da vida em comunidade, só te tira da escravidão de precisar que a comunidade te aprove pra você se sentir inteiro ou valioso.

E tem ainda o que Jesus nos ensinou sobre escolher os últimos lugares nas reuniões públicas. No início de meus estudos sobre as escrituras a 15 anos atrás, eu lia esse texto apenas como um conselho de boas maneiras, mas hoje leio como estratégia de blindagem:

Quem já está intencionalmente sentado na última cadeira, só tem como ser trazido para frente.

Sei que alguns vão pensar, André sempre tem como piorar, você ainda pode ser tirado para fora da reunião (rs). Essa opção não está no contexto, voltemos ao texto.

Arrogância se alimenta de aplauso, e prédio construído só de aplauso é prédio de carta de baralhos, não fica em pé por muito tempo, por mais que a gente segure com as duas mãos.

A humildade que serve, essa sim, é a única que eu já vi resistir à tempestade.

Fechando o assunto

Se isso fez sentido pra você, é porque, em algum momento, alguém tentou te emprestar a caneta e você quase assinou o consentimento para se sentir diminuído sem perceber.

Eu ainda tenho que pegar a minha caneta de volta todo santo dia. Nesse tipo de situação não existe vitória definitiva, é um trabalho de tijolo em cima de tijolo.

Revisão prática:

  • Quando um comentário pequeno pesar demais, pergunte onde está o seu Locus: se sua paz depende da opinião de alguém, a chave está na mão errada.

  • Na próxima vez que a comparação apertar o estômago, não tente se convencer de nada. Vá servir alguém, esse é o único remédio que nunca falhou comigo.

  • Lembre-se que "quem ele pensa que é" e "eu não mereço isso" são faces da mesma moeda, a do ego superestimado. A cura das duas é olhar pra fora.

  • Sua identidade já precisa estar resolvida antes de você pegar qualquer bacia pra servir, nunca depois, servir não é uma prova do próprio valor.

  • Escolher a última cadeira não é se diminuir. É se colocar onde não existe brigas para ocupar uma cadeira ou ainda, de ser expulso de uma cadeira que não lhe foi reservada, se existir uma cadeira para você mais à frente, você será chamado.

Eu sou o André Santana. Eu leio para melhorar a minha vida. O que aprendo eu compartilho. E se te fizer sentido, então você é de casa.

Um abraço e fica com Deus.

Grupo de amigos em um pequeno grupo ou célula evangelística
Grupo de amigos em um pequeno grupo ou célula evangelística