Existe um lugar ideal para ser o melhor lugar do mundo?

Já teve situações em que a minha esperança estava no momento quando eu mudasse de casa, de cargo, de cidade, eu finalmente ia obter sucesso no que eu estava fazendo. Mas descobri que essa espera tem nome, e ela rouba o hoje enquanto promete o amanhã.

IDEIASAPRENDIZADO

10/17/20267 min read

Um nome para o que sentimos

Foi pesquisando para fazer esse artigo que esbarrei num termo do psicólogo Robert Holden: Destination Addiction, a síndrome da chegada. É o vício de acreditar que a felicidade mora sempre no próximo lugar, no próximo cargo, na próxima fase. E o problema dessa síndrome não é sonhar com o futuro, é que ela empurra a linha de chegada pra frente toda vez que você se aproxima.

E olha que curioso: uma pesquisa nacional divulgada este ano mostrou algo parecido em números. Ela apontou que os brasileiros entre 50 e 74 anos são os que declaram os maiores níveis de plenitude com a própria vida, enquanto a geração mais jovem, mais conectada e mais habituada a comparar a própria rotina com a dos outros nas redes, é justamente a que relata menos satisfação. Não é coincidência. Quem vive comparando o próprio hoje com o "lá fora" de outra pessoa, está sem perceber, treinando o cérebro pra nunca estar satisfeito com onde está.

Tem uma cena que resume isso melhor do que qualquer gráfico. Em "O Mágico de Oz", Dorothy atravessa um mundo inteiro, cores, perigos, personagens fantásticos, atrás de um jeito de voltar para casa. E quando finalmente descobre que o poder de voltar sempre esteve nos próprios pés dela, a frase que resume tudo é simples: não há lugar como o lar. Ela não precisava ir tão longe para achar o que já tinha.

Perdi as contas de quantas vezes me peguei pensando que só poderia fazer meu trabalho bem feito quando tivesse meu escritório da maneira que eu imaginava.

O primeiro foi um cantinho de estudos, quando eu ainda achava que bastava um lugar "mais organizado" para ter meu trabalho organizado. No sétimo ano de casamento, percebi que eu não usava tanto o meu cantinho de trabalho quanto eu imaginei. Afinal, eu ainda não empreendia, então ele era mais o meu local de estudos, foi então que cedi ele, porque a casa precisava de um novo quarto, afinal, eu e a minha amada esposa Denise estávamos grávidos.

O segundo, foi improvisado no cantinho do meu quarto. O espaço era bem limitado e nada apropriado para as calls com clientes. Devia ter 1,20m por 2,80m a área. Mas era todo o espaço que eu tinha disponível no momento e era ali que as coisas aconteciam.

Mais tarde, em meio a pandemia, o jogo foi para outro nível, tendo o apartamento inteiro como quarto do Baruk, nosso filho, e agora empreendendo de verdade, tive que levar meu escritório para a sala. Afinal, eu havia acabado de fechar contrato com uma empresa da Espanha. E eu pensando lá no começo, que eu precisava de um escritório "de verdade" para trabalhar de verdade!

Ali, eu cuidava do meu filho de dois anos e meio ao mesmo tempo, entre uma reunião e outra. Como todos naquela época, eu achava que aquilo era só uma fase de transição, algumas semanas apenas e tudo voltaria ao normal rapidamente, mas como sabemos a história da pandemia não foi bem assim.

E pensando em alguns momentos da vida, dá para concluir que as coisas não saem exatamente como planejamos. E é possível extrair muito sofrimento dessas experiências se ficarmos paralisados esperando que o ideal chegue, para só então, tentar fazer alguma coisa “de verdade”.

Então pare e pense comigo, E se esse "quando estiver perfeito" nunca chegar?

Você já reparou quantas vezes no seu dia você adia coisas importantes para depois de alguma coisa ideal acontecer?

Nas próximas linhas você vai encontrar:

  • O nome que a psicologia dá para essa espera que nunca termina, e por que ela te empurra pra sempre um passo à frente de onde você está

  • O que catorze anos trabalhando sob três gestões bem diferentes me ensinaram sobre crescer exatamente onde você está, sem esperar o cenário ideal

  • Por que Paulo escreveu uma das cartas mais alegres da Bíblia de dentro de uma prisão, e o que isso tem a ver com o seu "quando"

Por que eu achava que o lugar certo ia me completar?

Durante anos, cada mudança de espaço físico foi, pra mim, uma tentativa de mudança interna. Eu não queria só um escritório diferente, eu queria ser um profissional diferente, mais "organizado", mais "pronto".

Mas algumas vezes isso não passa da velha e malvada vaidade fazendo o trabalho sujo dela: você conquista o lugar novo, sente aquele pico de alegria, e em poucos meses o cérebro se acostuma e volta pro mesmo lugar de sempre.

O lugar não muda quem você é. Ele só empresta, por um tempo, a ilusão de alguma coisa essencial que mudou.

E eu não estou dizendo que não precisamos aprimorar o nosso ambiente de trabalho, principalmente quando empreendemos. Eu estou fazendo isso o tempo todo. A questão aqui é o porque fazemos isso.

Traduzindo pra vida: talvez não seja um escritório, no seu caso. Pode ser aquele emprego que você acha que vai te validar, aquele relacionamento que vai preencher o vazio, aquela cidade que vai te dar paz. Pergunte com honestidade: quantas vezes você já chegou "lá" e, em menos de seis meses, já estava mirando o próximo "lá"?

O que eu aprendi trabalhando sob três gestões diferentes em um mesmo lugar?

Trabalhei catorze anos numa instituição de ensino superior, que passou por três modelos de gestão completamente distintos, do familiar ao corporativo cheio de burocracia.

Todo mundo me perguntava qual era o melhor. E a resposta sincera é que nenhum era melhor: eram só diferentes, cada um com o que tinha de bom e de ruim.

Eu dei o meu melhor nos três. E foi ali, dentro de circunstâncias que eu não escolhi, que eu mais cresci como profissional.

Isso quebra um mito perigoso: o de que existe uma condição de trabalho "ideal" te esperando em algum lugar, e que enquanto você não a encontra, está tudo provisório.

Não está. O crescimento normalmente acontece dentro da gestão que você tem agora, não na que você sonha em ter.

O que a minha esposa me ensinou sobre time?

Conheci minha esposa na universidade, e desde o começo dos nossos primeiros projetos juntos percebemos algo simples: funcionávamos bem juntos como equipe.

Não viemos de berço de ouro, e boa parte da nossa trajetória foi construída em circunstâncias que, no papel, não favoreciam nada.

Mas nunca dependemos de o cenário estar perfeito para começarmos a caminhar juntos, inclusive na fé, num momento em que enfrentamos bastante oposição por causa das nossas escolhas.

E se tem algo que aprendemos lidando com a gestão da comunicação de uma mega igreja com milhares de pessoas, com toda a diversidade de gente real que isso representa, é que interdependência não espera condição ideal.

Isso começa com a pendência total de Deus, e depois evolui para essa interdependência como casal, como equipe e como comunidade.

Você não precisa que o cenário esteja todo pronto e perfeito para começar a construir algo importante.

O ponto de virada

Existe uma carta na Bíblia que Paulo escreveu de dentro de uma masmorra, e é uma das mais alegres de toda a Escritura. Em Filipenses, ele conta que aprendeu e usa exatamente essa palavra, aprendeu, como quem passou por um processo, a viver em paz em qualquer situação.

"Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Tanto sei estar humilhado como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias, já tenho experiência, tanto de fartura como de fome; assim de abundância como de escassez; tudo posso naquele que me fortalece." Filipenses 4:11-13

Não é um comportamento de quem cruza os braços e não faz nada. É contentamento de quem não depende de onde está naquele momento.

E tem uma passagem do povo hebreu no deserto que sempre me vem à mente: o maná (a provisão) que Deus enviava só durava um dia. Quem tentava guardar uma porção extra para amanhã, via tudo apodrecer.

A provisão de Deus está no presente, se sua cabeça só está morando no "lugar ideal" do futuro, você está ignorando a provisão de hoje.

Até o Éden, que era literalmente o lugar mais perfeito que já existiu para o ser humano, não impediu Adão e Eva de se sentirem insatisfeitos. Se o paraíso não bastou, nenhum outro endereço vai bastar.

A mudança que resolve isso não é externa. É interna.

Fechando o assunto

Hoje já estou no meu escritório novinho, e não paro de pensar e fazer pequenos upgrades nele, e claro que sonho com o próximo, afinal, o escritório é onde faço todos os trabalhos da Três16, do Ide-Ação, e outros projetos. É nesse local onde passo a maior parte do meu tempo.

Mas hoje em dia, não penso mais "onde eu vou estar quando as coisas forem ideais", e sim "o que este lugar de hoje, mesmo com suas limitações, está me proporcionando e me ensinando".

Pra levar com você:

  • Repare quantas vezes por dia você usa a linguagem do "quando" ou do "se eu estivesse em outro lugar" — nomear é o primeiro passo.

  • Liste três coisas que só existem na sua situação atual e que você perderia se mudasse agora.

  • Escolha uma ação pequena e concreta pra melhorar o hoje, exatamente onde você está, não o lugar que você sonha alcançar.

Se isso fez sentido pra você, talvez seja porque você também já adiou demais a própria vida esperando um lugar melhor pra começar a vivê-la.

Eu sou o André Santana. Eu leio para melhorar a minha vida. O que aprendo, eu compartilho. E se te fizer sentido, então você é de casa.