A marreta e o mosquito: por que sua reação exagerada está destruindo mais do que resolvendo

Quem já não detonou um mosquito com uma marreta? É claro que não literalmente, mas você consegue entender a metáfora, certo?

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7/28/20266 min read

Na Terapia Cognitivo-Comportamental existe um nome pra essa armadilha: catastrofização. É quando seu cérebro transforma um problema nível 2 numa tragédia nível 10. E o problema não é só emocional, é energético. Quando você catastrofiza algo pequeno, seu corpo despeja adrenalina e cortisol como se estivesse enfrentando um leão, e no fim do dia você está exausto por coisas que, olhando com calma, nem mereciam tanto gasto.

Daniel Kahneman, o psicólogo que ganhou o Nobel por estudar como a gente pensa, chama isso de Sistema 1 e Sistema 2. Podemos ter mais informações sobre esse tema no seu livro Rápido Devagar.

O Sistema 1 é rápido, automático, impulsivo, ele reage antes de pensar. O Sistema 2 é lento, deliberado, cuidadoso, ele pensa antes de agir.

Toda vez que você usa força exagerada numa situação pequena, é o Sistema 1 no comando. E toda vez que você consegue pausar e agir com leveza, é porque o Sistema 2 finalmente entrou na sala.

Me lembro no início da minha utilização do Facebook, quando recebia um comentário meio ácido a respeito de uma postagem minha. Imediatamente eu escrevia uma resposta de quatro longos parágrafos.

Ou ainda a clássica fechada no trânsito, a maioria de nós não pensa dois segundos antes de meter a buzina no outro.

Tenho que me entregar, a coisa que mais me irritava era derrubar comida. Quando um prato ou vasilha com comida caia e quebrava, e minha reação era desproporcional a ponto de eu mesmo, minutos depois, olhar pro estrago e pensar: "por que eu fiz aquela cena toda?"

Sabe o que acontece quando a gente usa ferramenta pesada para resolver um problema pequeno? A gente não resolve nada, só destrói a mesa no processo.

E o pior é que a mesa, muitas vezes, é um relacionamento, uma conversa, uma tarde que poderia ter sido suave e reconfortante e virou pesada por causa da nossa própria reação.

Não podemos usar ferramentas pesadas e botar tanta força ao lidar com coisas pequenas. John C. Maxwell

Este é o insight que inspirou esse artigo, eu o tirei da leitura do seu livro Vencendo com as Pessoas.

Retomando...

Mansidão não é fraqueza, é força domada

Agora deixa eu te levar pra um lugar que eu amo, que é onde a fé encontra essa mesma verdade, só que com outra roupagem.

A gente cresceu ouvindo que mansidão é sinônimo de fraqueza, de gente que não tem opinião, que se dobra fácil.

Mas no grego original da Bíblia, a palavra usada, praotes, não significava isso. Ela era usada pra descrever um cavalo selvagem que tinha sido domado.

Pensa nessa imagem: um animal com força bruta de sobra, capaz de derrubar um homem com um chute, mas que aprendeu a responder ao comando, a andar no ritmo certo, a usar sua força só quando necessário.

Mansidão não é ausência de força. É força sob controle total.

Isso muda tudo, não é? Porque significa que a pessoa mansa não é a que não tem munição, é a que tem munição de sobra e escolhe, intencionalmente, não gastar ela em qualquer irritação passageira.

Provérbios 29:11 é quase cirúrgico nisso: "O tolo dá vazão a toda a sua ira, mas o sábio a domina e reprime."

Eu leio esse versículo e penso: o tolo é aquele que gasta toda a munição em qualquer barulho. O sábio guarda a energia, porque ele sabe que vai precisar dela pra batalhas que realmente importam.

E quando Paulo lista o Fruto do Espírito em Gálatas 5:23, o último da lista é domínio próprio. Não por acaso ele vem no fim, como quem coroa tudo o que veio antes.

Porque de que vale ter amor, paciência, bondade, se na hora da pressão você não consegue segurar as rédeas do próprio impulso?

Domínio próprio é exatamente isso: não ser governado pelo instinto, mas escolher a resposta certa, na medida certa.

A matemática da reação emocional

Ao ler o livro Vencendo com as Pessoas tive a oportunidade refletir bastante sobre as minhas próprias reações diante de situações estressantes, mas que não são tão graves assim.

E fazer isso, me levou a tomar consciência de algumas coisas que podiam me dar maior controle sob essas circunstâncias.

A primeira coisa é dar uma resposta proporcional ao problema, parece óbvio depois de chegarmos até aqui, saber que devemos trabalhar de forma consciente por uma atitude equilibrada e intencional é vital. Até aqui saímos da ignorância.

Diante da situação difícil, é preciso fazer uma Pausa Consciente, que é o espaço entre o estímulo e sua reação.

Agora vamos falar da calibragem do problema, avaliar racionalmente o tamanho real da situação. Estamos lidando com um leão ou com uma barata?

Sei que para algumas pessoas a barata parece mais perigosa (rs). Brincadeiras à parte, vamos continuar.

Sei que essa conta não é simples de fechar, embora não seja fácil: quanto maior a pausa consciente, melhor você calibra o problema, e automaticamente menor fica o exagero.

É matemática emocional, e funciona.

Três passos pra deixar a marreta de lado

1. A Escala de 1 a 10

Antes de reagir a qualquer frustração, um e-mail atravessado, uma fechada no trânsito, um copo quebrado, pergunte-se: "numa escala de 1 a 10, sendo 10 a perda de alguém que eu amo ou uma doença grave, que nota tem esse problema?" Ninguém deveria gastar energia nível 8 num problema nível 2.

Comigo é assim: quando eu faço essa pergunta antes de responder um comentário que me irritou, quase sempre a nota real é bem menor do que a indignação que eu estava sentindo.

2. A Regra dos 5 Segundos

Diante de qualquer estímulo negativo, respire profundamente e conte até 5 antes de falar, mandar a mensagem ou tomar a atitude. Nesses 5 segundos, o sangue volta pro córtex pré-frontal, e a intenção tem chance de substituir o impulso. Parece pouco, mas é o suficiente pra virar o jogo.

3. A Pergunta da Seleção de Ferramentas

No meio de uma discussão, pare e se pergunte: "eu estou usando um bisturi ou uma marreta agora?"

Se o objetivo é corrigir um erro pequeno ou dar um feedback, a leveza, o bisturi, é precisa e ajuda a curar.

Já o sarcasmo, a ironia pesada, a agressividade, é a marreta: ela até acerta o mosquito, mas esmaga o a mesa junto que é relacionamento.

Fechando o assunto.

Até aqui aprendemos que a reação exagerada em problemas pequenos é cientificamente o sequestro da amígdala, e não avaliação real da situação.

Que a mansidão bíblica não é fraqueza, é força controlada. Que Domínio próprio é o fruto que coroa o caráter.

Aprendemos a usar a escala de 1 a 10 pra calibrar o tamanho real do problema, e que podemos aplicar a pausa de 5 segundos antes de reagir.

Agora sejamos sinceros, isso é o que sempre consigo colocar em prática?

Absolutamente não. Não são todas as vezes que consigo colocar todos esses ensinamentos em prática antes de usar a marreta.

Mas tenho que admitir, conhecer tudo isso me fez dar largos passos em direção a uma melhora significativa.

Se alguma coisa fez sentido pra você, então vai lá e usa. Só não deixe esse conhecimento parado.

Essas foram algumas poucas palavras de um amigo e irmão que tem aprendido a Vencer com as Pessoas.

Eu sou André Santana e leio para melhorar a minha vida. O que leio, eu compartilho. E se te fizer sentido, então você é de casa.

Abração e que Deus te abençoe

O sequestro que acontece antes de você perceber

Aqui está algo que eu acho fascinante: existe uma explicação biológica pra isso, e ela tem nome, sequestro da amígdala.

A amígdala é aquela parte do cérebro responsável pelo medo e pela emoção, e ela é rápida e é sobrevivencialista. Diante de um contratempo pequeno, um comentário mal colocado, um atraso, uma crítica, ela dispara o alarme como se sua vida estivesse em risco, antes mesmo que o córtex pré-frontal, a parte lógica e ponderada do cérebro, tenha tempo de avaliar a situação com calma.

Você já percebeu que, depois que você "explode" com alguma coisa pequena, geralmente vem aquela sensação de "por que eu reagi assim"? Isso é o córtex pré-frontal chegando atrasado pra festa, como um bombeiro que chega depois que a casa já queimou.